Richarlison, o goleador amigo da ciência e engajado em causas sociais

 Atacante da seleção é o novo xodó dos torcedores brasileiros.

Foto: Lucas Figueiredo/CBF

Quando o iraniano Alireza Faghani apitou o final do jogo entre Brasil x Sérvia, partida vencida pela seleção brasileira e que marcou a nossa estreia na Copa do Mundo do Catar, um nome virou sensação no Brasil: Richarlison. 

O rapaz de 25 anos, nascido em Nova Venécia (ES), dono de uma personalidade que oscila entre o meigo e o engraçado, tomou para si os holofotes e marcou os dois gols da nossa vitória. Um deles de voleio. Foi o primeiro camisa 9 a marcar dois gols numa estreia de Copa desde Ronaldo: o último a vestir essa camisa e se tornar campeão do mundo.

Rapidamente, o interesse em Richarlison disparou. Quem é ele? Onde joga? Como ele é? Do que gosta? De quem gosta? O nome do camisa 9, e que atua pelo Tottenham, da Inglaterra, virou o mais buscado no Google durante os últimos sete dias no Brasil. O buscador não diz o número exato de pesquisas, mas, no gráfico que disponibiliza, o interesse no nome de Richy, como é chamado na Inglaterra, onde joga, literalmente saiu de 1 para 100, entre 16h e 18h. 

O Google mensura o interesse em um tema numa escala que vai de 0 a 100, sendo o valor máximo representando pico de popularidade de um termo. Um valor de 50 significa que o termo teve metade da popularidade. Uma pontuação de 0 significa que não havia dados suficientes sobre o termo. No Instagram, o jogador teve cerca de 5 milhões de novos seguidores pouco mais de 24 horas depois de ser o herói da estreia canarinha.

Quem ficou curioso em conhecer Richarlison, deu sorte. O cara é uma figura. Boa praça dentro e fora de campo, extremamente preocupado com causas sociais, por exemplo. Esse cuidado com o social, diz o próprio Richarlison, é fruto da infância e adolescência carente no Espírito Santo.

“Isso é parte do que eu sou, de onde eu vim, da minha origem. Não me considero um cara politizado no sentido que alguns tentam colocar, só me conscientizei do que eu posso fazer, até onde a minha voz pode chegar e quem eu quero ajudar”, declarou em uma entrevista ao Ecoa, do Uol, em 2020.

Nesse mesmo ano, levantou um debate sobre o racismo institucional após o assassinato do menino João Pedro, morto dentro de sua casa em uma ação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio de Janeiro. Alguns meses depois e ele estava defendendo os protestos feitos em todo o mundo após a morte de George Floyd, asfixiado por um policial militar nos EUA.

O Pombo, apelido que ganhou por conta de sua comemoração característica, não tem nada de sujo - como apelidamos aqui na Bahia. Nosso Pombo é limpo e não tem medo de colocar a cara a tapa, mesmo reconhecendo que isso incomoda muito: “Vem um monte de gente xingar, um monte de gente para de me seguir e dá uma dor de cabeça danada”, contou em entrevista ao O Estado de S.Paulo.

Uma dessas dores de cabeça foi ser alvo de fake news: seus posicionamentos o aproximam ideologicamente da esquerda. Após a partida de estreia na Copa, internautas espalharam uma foto com uma declaração inexistente dele dedicando os gols para o presidente Jair Bolsonaro (PL). Richarlison não declarou em quem votou nas últimas eleições.

Na pandemia, se tornou embaixador do USP Vida, programa da Universidade de São Paulo (USP) que reuniu pesquisadores em ações de combate ao coronavírus. Seu papel era de reunir atletas, empresas e pessoas para fazerem doações e manter o programa vivo. Foram quase R$ 20 milhões arrecadados.

O Pombo também tem forte ligação com o meio ambiente. O Pantanal se tornou um de seus xodós: visitou a região pela primeira vez e foi uma das vozes públicas mais ativas durante as queimadas que a região pantaneira sofreu em 2020. Ele registrou esse momento no texto que escreveu para o Player’s Tribune, site que reúne depoimentos pessoais de atletas em todo o mundo.

"Não sou político. Não consigo interromper as queimadas sozinho. Mas como jogador da Seleção Brasileira e do Everton [clube inglês que defendia na época], posso ao menos mostrar às pessoas o que está acontecendo. Por isso, postei algumas fotos nas minhas redes sociais em demonstração de apoio ao Pantanal. Não queria apenas me solidarizar com o problema. Era para chamar a atenção das autoridades."

Também entrou na luta pela localização do indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips, assassinados em junho no Vale do Javari, na Amazônia. 

Ainda há os casos em que ele atua de maneira abnegada, mas que, após os gols na estreia, acabaram sendo publicizadas. Uma fã relatou de quando ele voluntariamente ajudou a custear a cirurgia de seu pai. À época, ele estava no Watford, primeiro clube que defendeu na Europa, após deixar o Fluminense por R$ 12,5 milhões em 2017. Ele enviou uma camisa autografada para que a garota e sua família fizessem uma rifa. Acompanhou de perto toda a situação até que tudo se resolvesse.

As bocas maldosas podem até querer sugerir que a fama de Richarlison é decorrente de seu cuidado com pautas sociais. Uma perversidade que os números fazem questões de desmentir: na seleção brasileira, o camisa 9 tem mais gols do que jogos. Ao todo, desde a estreia, em 2018, são nove jogos e 11 gols marcados. Em apenas duas dessas partidas ele saiu de campo sem balançar a rede: na derrota por 1 a 0 para o Peru, em 2019, e na vitória sobre o Japão, por 1 a 0, em junho deste ano.

Além disso, foi artilheiro das Olimpíadas em Tóquio, quando foi campeão vestindo a camisa 10, herdada de Neymar. Foram cinco gols e ouro no peito para o rapaz dourado, que quer conquistar o mundo, mas também vem conquistando corações.

Foto: Tottenham/Divulgação

Tecnologia do Blogger.